Um dia, me abandonaram. Eu, que sempre fui para todo lado junto a meu dono, sempre fui fiel, eu que provei do sal da terra por onde ele trabalhou, nas lavouras da roça. Estive lá quando ele não tinha mais nada além da roupa do corpo. Cruzei rios, matas, estradas e praças, sempre companheiro, mas um dia a gente fica velho e eu acordei abandonado.
Não queria fazer mais nada, só queria ficar ali. Não me movia. Até que alguns garotos passaram por mim, descalços, mas carregando uma bola de futebol tão velha e surrada quanto eu. Logo simpatizei. Um deles, pequenininho, me pegou, triunfante, e os garotos se reuniram ao meu redor.
Jogamos bola na rua a tarde toda. Eu era parte do jogo! Parte da emoção! E quantas vezes a bola não passou por mim, para controvérsia geral, ou para alívio de um time ou outro. Mas a tarde foi se encerrando e, com ela, o sol me indicava mais uma noite solitária ali nas ruas.
- Ei Tiago! Cata esse chinelo pra gente usar de trave amanhã também!
Ao ouvir isso, eu me senti quase vivo. Tiago, o pequenininho, me catou e colocou no bolso sujo de sua bermuda, e me levou para casa. Lá eu conheci a família dele e o Simba, um vira-lata de quem fiquei muito amigo. Mas isto já é outra história.
[Este é mais um texto no jogo que eu e a Fê Rodrigues temos feito! Confira o outro texto. O que você tem achado desta brincadeira?]
Pra todo chinelo velho há um pé cansado. Acho que essa frase resume bem os 2 textos. Tô adorando essa brincadeira, esse foi um dos que eu mais gostei, fato.